Alçado poente e nascente. Reconstituição conjetural (1420 - ca. 1460)


O Paço dos Duques de Bragança de Guimarães foi mandado construir pelos anos 1420-22 pelo 8º Conde de Barcelos, D. Afonso (1380-1461), filho ilegítimo de D. João I e D. Inês Pires Esteves. Foi neste Paço que D. Afonso estabeleceu residência com D. Constança de Noronha, sua segunda esposa.
Apesar de ser filho bastardo do rei D. João I, D. Afonso recebeu sempre o apoio do pai, o fundador da Dinastia de Avis, através de extensas doações e alianças matrimoniais. D. Afonso casou-se, em 1401, com D. Beatriz, filha do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, passando a partir de então a ostentar o título de Conde de Barcelos. Guimarães passa a estar associada a D. Afonso a partir de 1409, altura em que D. João I lhe faz a doação de Fão, com todas as suas rendas, direitos e jurisdições.
João Lopes Faria, estudioso da documentação existente no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta (em Guimarães), encontra em 1402 e em 1412 a presença na vila de um “carpinteiro do Conde”, Affonso Annes. Esta descoberta leva-nos a ponderar a possibilidade de a construção do Paço dos Duques se ter iniciado antes do segundo casamento do Conde com D. Constança de Noronha em 1420. Contudo, não há nada que ateste esta hipótese, pelo que, pensamos que a construção do Paço se tenha iniciado por volta de 1420, como consequência direta do casamento do Conde.
A 7 de julho de 1428 D. Afonso assina, já no seu Paço em Guimarães, um documento de justificação de descendência dos seus filhos, fruto do seu primeiro casamento com D. Beatriz Pereira.
A construção de um paço ducal, com as dimensões do Paço dos Duques, justifica-se pela tentativa de afirmação da posição social do Conde que, sendo filho bastardo do rei, tentava desta forma consolidar o seu poder.
A dimensão e importância do Paço podem ser atestados pelo número de criados existentes, havendo ainda um aumento significativo entre 1420 e 1430, mantendo-se estável na década seguinte. Há, no entanto, um aumento da comitiva que habitava o Paço na década de 1450, fruto, talvez, da ascensão social que teve D. Afonso após ter sido nomeado pelo regente D. Pedro, seu meio-irmão, do cargo de Fronteiro-Mor de Entre-Douro-E-Minho e do título de Duque de Bragança, em 28 de junho de 1442. Pensa-se, no entanto, que o Paço estaria ainda em construção nesta altura.
Os contactos culturais mantidos por D. Afonso com boa parte da Europa, efetuados durante as suas viagens por compromissos diplomáticos e por iniciativa pessoal, levaram-no a visitar países/regiões tão diversos como Inglaterra, Itália, Escócia, Navarra, Aragão, Castela, Provença, Auvergne e Borgonha. Além destas viagens, as suas campanhas militares em Ceuta, influenciaram o modo de ver e viver do futuro Duque de Bragança. A construção do Paço, não só pelas dimensões nada usuais em Portugal, como pela utilização de elementos construtivos estrangeiros e pela preocupação pelo conforto e luxo, pioneiras em Portugal nessa época, denota uma influência europeia na sua conceção.
Desconhece-se qual o responsável técnico pela construção do Paço Ducal, sendo referido em alguns documentos, um “Mestre Antom”, que se pensa ser de origem francesa.
No entanto o Paço não passou por uma única fase construtiva. Após a morte do Duque de Bragança, em 1461, as obras de construção pararam. D. Constança, a duquesa viúva, permanece no Paço e este é utilizado como uma espécie de local de acolhimento de doentes e necessitados. D. Fernando II (1430-1483), 3º Duque de Bragança desde 1478, terá impulsionado a continuação das obras do Paço, mercê dos extensos privilégios recebidos que o vinculavam a Guimarães pelo seu casamento com D. Isabel, uma sobrinha de D. Constança de Noronha. Entre estes privilégios contavam-se, em 1464, a doação do padroado de Nossa Senhora da Oliveira e de todas as igrejas e mosteiros de Guimarães que era, então, elevada a condado. Mais tarde, D. Afonso V concede a D. Fernando II o título de Duque de Guimarães.
D. Fernando II é executado em Évora em 1483, por ordem de D. João II, por se ter recusado a prestar juramento de fidelidade ao Rei, sendo todos os bens da Casa de Bragança confiscados pelo Monarca. Apesar disso, o Paço dos Duques não é deixado ao abandono, tendo o rei cuidado da sua manutenção, como o atesta a contratação de um carpinteiro em 1490 para esse efeito.
Em 1496, D. Manuel I regenera a Casa de Bragança. Chama a D. Jaime (1479-1532), “Duque de Bragança e de Guimarães […] meu muito amado e prezado sobrinho” e confirma a doação dos padroados de Guimarães. Isto parece confirmar a tese de Custódio Vieira da Silva segundo a qual teria sido D. Jaime, 4º Duque de Bragança, a construir o terceiro piso do Paço da fachada posterior, interligando os dois torreões que ladeiam a Capela.
D. Jaime morre em 22 de dezembro de 1532, sucedendo-lhe D. Teodósio (?-1563), seu filho, que doou o ducado de Guimarães a sua irmã, D. Isabel, para o casamento desta com o infante D. Duarte (1515-1540), que se torna, assim, o 4º Duque de Guimarães. Deste casamento nasce D. Duarte (1541-1576), 5º Duque de Guimarães, que morre em 1576, sem deixar descendência, e que, segundo o Padre António Caldas, terá sido este neto do rei D. Manuel I o último habitante do Paço dos Duques.